Roraima até hoje é percebido como terra de conquista, a ser explorada em suas riquezas da forma mais rentável e rápida possível. Os projetos de desenvolvimento hoje propostos em Roraima são fruto de uma concepção na qual só pode haver desenvolvimento com a substituição do natural pelo artificial, da diversidade pela monocultura, da floresta e do lavrado por pastos e plantações como arroz, soja, demais grãos ou acácias e eucaliptos para polpa de celulose.
Esta concepção gera conflitos ambientais e sociais. Citaremos apenas dois exemplos: plantio de arroz irrigado e Acácia Mangium. Para produzir arroz e grãos em escala industrial e com técnicas de altíssimo impacto ambiental se destrói a biodiversidade nativa em grandes áreas, muitas vezes invadindo terras indígenas. Rios e igarapés são bombeados até secar para a irrigação, e a pouca água que escoa retorna aos leitos carregada de resíduos químicos e de agrotóxicos.
O impacto sobre os recursos naturais indígenas é dramático nas áreas próximas, mas não se limita a estas: até os pescadores do baixo rio Branco, centenas de quilômetros rio abaixo, se queixam da baixa do pescado em conseqüência da poluição das águas.
Plantios de Acácia mangium e eucalipto estão ocupando áreas crescentes dos lavrados roraimenses, muitas vezes a poucos metros da fronteira de pequenas terras indígenas. O impacto destas monoculturas arbóreas exóticas, destinadas a alimentar uma fábrica de polpa de celulose, planejada com incentivos do Governo do Estado, no delicado ecossistema do lavrado é em grande parte desconhecido.
Sabe-se que pelo menos 20% de uma área planejada inicialmente para 30 mil hectares está plantada. Índios Wapichana e Macuxi detectam os primeiros sinais de alarme. Preocupados com o impacto das plantações intensivas sobre o equilíbrio hidrológico do lavrado, os índios denunciam a proliferação de enxames de abelhas, favorecida pelas abundantes secreções melíferas extraflorais das acácias.
Esses enxames espalham-se nas áreas de fronteira com as terras indígenas, dificultando atividades tradicionais dos índios como a coleta de palha das palmeiras de buriti, matéria-prima utilizada na confecção dos tetos das casas e de artesanato.
Esta concepção de desenvolvimento já fracassou e pertence ao passado em outros Estados da Amazônia, como Acre, Amapá e Amazonas, que investem hoje na valorização da diversidade biológica, étnica e sociocultural.
A especificidades e vocações naturais dos ecossistemas locais não podem ser entendidas plenamente sem o diálogo aprofundado com as populações nativas, com base no reconhecimento da diversidade e dignidade de seus conhecimentos tradicionais ligados aos ambientes e à biodiversidade locais.
Neste contexto, o modelo de desenvolvimento proposto gera conflitos socioambientais porque as demarcações de terras indígenas são consideradas responsáveis pela medíocre atividade econômica e por impedir o desenvolvimento local.
A demarcação e a homologação de Raposa Serra do Sol ocupa um papel central nas questões políticas locais. O Governo do Estado, políticos e grupos de interesses dominantes estão conduzindo, em todas as esferas, uma áspera luta contra o reconhecimento definitivo da área contínua.
A batalha também inclui pressões políticas de deputados federais e senadores do Estado sobre o Governo Federal, assim como campanhas difamatórias na mídia contra a Funai, as organizações indígenas e seus apoios locais, nacionais e internacionais. Casos de ameaças abertas e intimidações, ou atos violentos contra indivíduos que apóiam direta ou indiretamente "a causa indígena" não são isolados na história recente e no dia-a-dia de Roraima.