III. Caracterização do distrito
C. SITUAÇÃO DA TERRA E AUTO-SUSTENTAÇÃO
Os campos naturais do vale do Rio Branco foram colonizados em meados do século XVIII à custa do sangue indígena. A consolidação do domínio português sobre a região ocorreu em 1775 com a construção do Forte São Joaquim. A violação da cultura indígena começou com os aldeamentos, uma maneira de tirar os povos nativos de suas habitações para reuni-los em aglomerados humanos onde serviam de mão de obra na construção de fortificações militares e religiosas. Depois vieram as fazendas para criação de gado, e a população indígena que vivia nas planícies (ou lavrado como se chama em Roraima) foi empurrada em sua maior parte para as áreas montanhosas, deixando o campo livre para a expansão da pecuária.
Aos índios que permaneceram próximos às fazendas era permitido cuidar do gado, mas não serem proprietários. Os criadores utilizavam-se da mão de obra em regime de semi-escravidão, pagando os serviços com comida e cachaça. No século XX teve início a invasão garimpeira, revirando as montanhas e rios em busca do ouro e diamante, poluindo as águas e o solo, e criando vilas e “corrutelas” onde se difundiram doenças como a Malária, o Calazar, a Tuberculose, as DST e o Alcoolismo, levando à desestruturação social.
A principal base econômica nas comunidades é a agricultura destinada basicamente à subsistência, com a venda de pequenos excedentes à população regional. A mandioca é o principal cultivo e base da alimentação, consumida na forma de farinha, beiju ou bebidas fermentadas (caxiri e pajuaru); a dieta é complementada por frutos da mata ou cultivados (banana, mamão, melancia, etc), por carne de animais que criam ou caçam, e por peixes que pescam nos lagos e rios da região.
As roças são familiares, cultivadas no método de coivara, sendo que em certas épocas do ano acontecem mutirões comunitários organizados pelos tuxauas. A criação de gado está presente em quase todas as malocas, com um rebanho hoje constituído por mais de 50.000 rezes. A circulação de dinheiro dentro das malocas é pequena, geralmente relacionada com o trabalho assalariado (professores e agentes de saúde) ou proveniente de aposentadorias, assim como da comercialização de produtos em escala regional. Os Wai-Wai estão localizados em regiões de florestas no sul do estado onde existe muita fartura de caça e pesca, e a coleta da castanha que é comercializada no estado do Amazonas.
Existem hoje na área do Distrito Sanitário Indígena do Leste de Roraima 32 terras indígenas em diferentes estágios de regularização fundiária, com uma extensão total de 3.250.256 hectares. Os maiores conflitos estão relacionados ao processo de demarcação e homologação da Terra Indígena Raposa-Serra do Sol, com uma extensão de 1.775.443 hectares e uma população superior a 17.500 indígenas, onde existem várias fazendas e algumas vilas habitadas por não-indíos.