III. Caracterização do distrito
B. ASPECTOS CULTURAIS E DE ORGANIZAÇÃO SOCIAL
O agrupamento social básico é a maloca, designação usual das aldeias, com um número de habitantes variando entre 30 e 800 pessoas, acomodados geralmente em casas de adobe, cobertura de palha de buriti e piso de chão batido, onde reside uma única família. As malocas geralmente são constituídas por um núcleo central de casas, onde se localiza a igreja, a escola, o posto de saúde e um local para reuniões, ao redor do qual à distância variável situam-se as demais moradias, normalmente perto das roças onde é possível criar os próprios animais sem atrapalhar os vizinhos.
As relações entre as famílias tendem a seguir a teia do parentesco, onde o esposo normalmente após o casamento vai morar perto da casa do sogro. Cada maloca tem um tuxaua que organiza sua vida social e a representa nas relações oficiais com as outras malocas e com os não-índios. Na divisão sexual do trabalho o homem é quem cultiva a roça, às vezes ajudado pela mulher, e também cuida do gado, enquanto à mulher é atribuída a tarefa de tratar a mandioca, fazer beiju e farinha, cuidar da casa e dos filhos.
Nas regiões mais próximas aos centros urbanos, principalmente da capital do estado, existe um fenômeno acentuado de migração para a cidade onde bairros inteiros são formados por gerações sucessivas de índios “desaldeados”. Além disto, muitas famílias que continuam morando nas malocas têm uma base de apoio na cidade, para onde enviam seus filhos em busca de estudo ou emprego, o que muitas vezes acaba com a fixação em definitivo.
Nos últimos anos, em decorrência do agravamento da crise econômica e fortalecimento da consciência indígena, em muitas regiões observou-se um fluxo invertido, com famílias inteiras voltando a residir nas malocas. A maior concentração populacional indígena se encontra nas áreas de fronteira com Guiana e Venezuela, em decorrência do processo de colonização, existindo movimentos migratórios constantes nestas regiões, com um grande número de pessoas buscando atendimento médico do lado brasileiro, devido às deficiências assistenciais existentes nestes países (imunização, controle de endemias, etc).
A população das etnias Macuxi, Wapichana e Taurepang em sua grande maioria possui bom domínio da língua portuguesa; em algumas aldeias mais próximas aos centros urbanos existem pessoas que já não falam a língua indígena, e nas aldeias mais afastadas existe dificuldade no uso da língua portuguesa. A população das etnias Ingaricó, Patamona e Wai-Wai se comunica preferencialmente na língua indígena, havendo poucos falantes da língua portuguesa. Nas aldeias localizadas na zona fronteiriça com a Guiana e a Venezuela encontram-se também muitos falantes das línguas inglesa e espanhola.