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16/4/2005
Brasil repara
parte da imensa dívida que tem com os povos indígenas
Após 30 anos de luta, união
e organização, os índios Macuxi, Wapichana,
Ingarikó, Taurepang e Patamona respiram aliviados. O presidente
Luiz Inácio Lula da Silva assinou, no dia 15 de abril, o
decreto que homologa de forma contínua a área Raposa
Serra do Sol, em Roraima.
"Esse é um grande momento do governo,
disse o Ministro da Justiça, Márcio Thomas Bastos,
durante a solenidade de assinatura do decreto que coloca um ponto
final no conflito entre índios, fazendeiros, plantadores
de arroz e garimpeiros que já se arrastava por três
décadas.
O coordenador do Conselho Indígena de Roraima,
Marinaldo Macuxi, considera que a homologação, mesmo
não atendendo todas reivindicações dos 16.684
indígenas da região, foi uma grande vitória.
Vamos viver com mais dignidade na terra que é nossa,
destacou.
O decreto garante 1.743.089 hectares para 164 aldeias
e determina também que ficam excluídas da área,
a sede do município de Uiramutã, o 6º Pelotão
Especial de Fronteira, as linhas de transmissão de energia
elétrica e os leitos das rodovias públicas federais
e estaduais.
Um pacote de compensações também
foi anunciado. O governo federal vai destinar 150 mil hectares da
União para a implantação de três pólos
desenvolvimento agropecuário; regulamentar 10 mil propriedades
familiares, identificar e cadastrar todas as famílias afetadas
pela homologação que se enquadrem nos pré-requisitos
Programa Nacional de Reforma Agrária e instalá-las
em projetos de assentamentos do Incra e concluir o levantamento,
avaliação e indenização das benfeitorias
identificadas na reserva.
O decreto estabelece o prazo de um ano para a indenizar
e retirar os ocupantes da reserva.
Segmentos anti-indígenas realizam protestos
Em Boa Vista, as manifestações contra
a homologação da terra indígena Raposa Serra
do Sol tiveram início logo depois de assinado o decreto.
A impressão que se tem é de que os políticos
e produtores de arroz foram pegos de surpresa, embora o Planalto
tivesse acenado dois dias antes, a possibilidade de homologar a
área.
Durante toda tarde de sábado produtores de arroz
e políticos ocuparam emissoras de rádio para protestar
contra a decisão do presidente e para chamar a população
para uma manifestação na praça central de Boa
Vista.
Participaram do protesto algumas dezenas de insatisfeitos,
inclusive índios contrários à homologação.
Faixas pretas foram distribuídas para os pedestres e motoristas
que circulavam no local. Os organizadores queriam mostrar que Roraima
estava de luto pelo acontecido. Apesar de todo o esforço,
a adesão popular foi mínima.
Domingo à noite, o monumento do Garimpeiro,
em frente ao Palácio do Governo, mais lembrava as imagens
dos santos em dia de festa. Centenas de velas foram acesas em torno
da estátua e foi anunciada uma vigília constante,
até o presidente Lula voltar atrás na homologação
contínua.
É esperada para hoje, 20/4, uma grande manifestação
na praça do Centro Cívico. Os organizadores prometeram
fechar o comércio e os postos de gasolina, além de
liberar o transporte coletivo para o deslocamente da população
até à praça.
O Governador Ottomar Pinto (PTB) decretou luto oficial
de sete dias em todo o estado devido ao reconhecimento de Raposa
Serra do Sol.
Força-tarefa está em Roraima para
evitar confronto
Upatakon - que significa nossa terra, na
língua Macuxi - é o nome da operação
que reúne mais de uma centena de policiais federais e rodoviários
federais numa força-tarefa organizada pelo Planalto, para
evitar confrontos e garantir a segurança.
A força-tarefa está em Roraima desde
a manhã de sábado com agentes em oito pontos considerados
sensíveis para coibir bloqueio de estradas, ocupação
de prédios públicos e ataques às aldeias.
De acordo com o superintendente da PF/RR, delegado
Francisco Malmann, os policiais irão fazer um trabalho de
prevenção e ficarão por tempo indeterminado
nas áreas consideradas conflitantes. O objetivo da
operação é garantir a segurança e o
Estado Democrático de Direito.
A Aeronáutica e o Exército Brasileiro
também participam da operação Upatakon. As
duas Forças dão apoio logístico no que se refere
à comunicação, transporte, equipamentos e mantimentos.
O ministro da Justiça, Márcio Thomaz
Bastos, acredita que não deverá haver conflitos. A
operação Upatakon visa garantir que não haja
nenhum distúrbio, nenhuma provocação, e eu
acredito que não vai haver", disse.
De acordo com o ministro da Justiça, todos os
esforços serão concentrados para evitar conflitos
na região. "Nossa diretriz é proteger as pessoas
que não tem proteção, evitar violências,
turbulências e abuso do poder econômico".
Na tarde de ontem, dois tratores percentes aos arrozeiros
Nelson Itikawa e Afonso Faccio foram interceptados pela PF sob a
suspeita de estarem sendo deslocados para obstruir a rodovia BR-174,
mas em seguida foram liberados.
Outro incidente registrado foi o laçamento de
uma bomba caseira na casa do coordenador o Núcleo Superior
de Educação Indígena da UFRR, professor Fábio
Almeida de Carvalho. Mas não existe provas suficentes de
que o atentado esteja ligado aos protestos contra a homologação.
A PF vai abrir inquérito para apurar o caso.
Governador recorre no Supremo contra homologação
O governador de Roraima, Ottomar Pinto (PTB) disse
que vai entrar com uma ação contra a União
para tentar tornar nulos os efeitos da portaria nº 534, do
Ministério da Justiça, que culminou com a assinatura
do decreto presidencial homologação de Raposa Serra
do Sol.
Na noite de sexta-feira, o governador se reuniu com
deputados, senadores, produtores de arroz, indígenas contrários
à homologação e dirigentes de entidades patronais
no Palácio Senador Hélio Campos. O encontro foi pautado
pelo clima de revolta.
O presidente da Assembléia Legislativa de Roraima,
deputado Mecias de Jesus não economizou críticas ao
ministro da Justiça e ao presidente Lula. Eles tiveram
uma atitude covarde, traiçoeira e entreguista. A Assembléia
aprovou uma moção de repúdio contra o dois.
Os representantes das entidades classistas demonstraram
preocupação com o futuro econômico do Estado
e creditaram ao Governo Federal a responsabilidade pela estagnação
econômica do menor estado da federação em terno
econômicos e populacionais.
O presidente da Associação dos Arrozeiros,
Luiz Afonso Faccio disse que o ato do presidente Lula representa
um abuso do poder central. Ele decidiu contra a vontade da
sociedade e de grande parte dos indígenas daquela região,
defende o arrozeiro.
Ainda na reunião com o governador, a bancada
federal de Roraima prometeu votar contra o governo nas duas casas
do Congresso
Ao tomar conhecimento de que Ottomar Pinto pretendia
propor ação contra o decreto de homologação,
o ministério da Justiça convocou o governador e a
bancada parlamentar para uma reunião. Queremos o entendimento.
O governador é meu amigo, eu o conheço há muitos
anos. Acreditamos que possamos trabalhar em parceria, disse
Bastos.
Conselho Indígena de Roraima
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